Os contemporâneos de plantão que me desculpem, mas vivemos em uma realidade que esbanja um falso colorido. O imperativo é cor, luzes, câmera, e pronto, tudo se transforma em uma reprodução amplamente convidativa, sem direito ao original.
O "photoshop" não é só um programa de edição de fotografias desenvolvido pela Adobe. É acima de tudo, um conceito trazido para o novo milênio. O conceito de que não precisamos nos preocupar porque sempre haverá a possibilidade de mudarmos a "cara" das coisas, ainda que para isso, seja necessário falsear a realidade. Isso mascara bem a primeira impressão de tudo. É necessário ter "felling", sexto sentido, experiência, para conseguirmos depreender a verdadeira face e sentido do que estamos em contato, sejam pessoas, ou situações. Como se estivessemos imersos em um infinito mar de ilusão, onde não se é possível avistar o fim por aqueles que desejam atracar seus navios. Aqueles que se cansaram de viajar sem sentido, embalados apenas pela melodia do "tanto faz", relaxa, ou simplesmente, deixa a vida me levar...
Os sentimentos se misturam facilmente e é comum até serem reproduzidos por simples modismo. É comum ouvir eu te amo! Mas os acontecimentos sangrentos e cruéis veiculados pela mídia , comprovam que o mundo está sedento por amor. Apesar dos "emotions" "budy pokies" do Orkut, dos bate papos do msn, das redes virtuais de relacionamentos, "paira" no ar uma ausência de profundidade e impera uma reticência governada pela falta de comprometimento com o porvir.
Se você é uma pessoa mais espiritualizada, que deseja comprometer-se sem medo, simplesmente pelo fato de que a vida não espera e se você não acredita, ninguém acreditará por você, uma pessoa que paga pra ver, mesmo que o preço seja sofrimento; Prepare-se, dificilmente encontrará espaço e compreensão em um mundo em que a palavra chave é emoção.
Bem, quero deixar claro, que isso aqui não é um manifesto contra o humor, a emoção, e qualquer forma que denote descontração, equilíbrio, alegria e bom astral.
Não que a emoção não seja algo natural ao ser humano.
Minha preocupação tem como cerne o desequilibrio e o desrespeito instalados que já se automatizaram. A sensação de que conversar com sobriedade é absurdo e demodê, a sensação de que sonhar é quase infantil e querer um relacionamento afetivo sério, baseado em confiança, respeito, sinceridade e crescimento em todas as áreas é quase inocencia juvenil.. E além disso, querer se aproximar de um indivíduo pelo que ele é e não pela sua posição social, intelectual, ou profissional, é quase inacreditável em um mundo tão neoliberalista. Onde o capital economico se mescla facilmente a qualquer coisa que indique lucro.
Sinto saudades do tempo, não muito longe, há uns quarenta anos, em que se era possível ter inocencia, sem parecer ridículo. Tá certo que parte desse tempo, ainda nem era nascida, mas consegui sentir ao menos um pouco dessas sensações tão sublimes que permeavam a década de 80, quando nasci, na verdade, muito pouco. Pois no início da década de 90, quando completava dez anos, o Brasil experimentava o processo de redemocratização do Estado brasileiro, com isso, houve uma reformulação da cultura por meio da inserção de novas tecnologias de comunicação e o mundo expandia-se em um processo denominado "aldeia-global", no entanto , paradoxalmente, as pessoas se individualizaram mais.
Beatles, uma das bandas mais famosas do mundo, já não era tão curtida , foi soterrada pelo capitalismo. Hoje, ouvir Beatles é coisa de pessoa romântica, que parou no tempo e deseja reativar seu lado inocente e sonhador.
O tempo em que as mulheres não eram consideradas todas iguais, padronizadas; desta forma, o cara podia sonhar com a nudez, imaginar um primeiro encontro sem necessariamente ter que transar. E a menina podia contar para as amigas sobre seu primeiro beijo, como algo novo, sobrenatural. Isso eu vivi, ufa!
Enfim, tenho sentido muita saudade de viver de maneira menos acelerada e ter tempo pra pensar, sonhar, imaginar e até chorar.... ôpa, preciso ir, estou atrasada.... Strawberry fields forever, nothing is real...
(Hellen Mendes)
Comentários